Imperial

Quando não há resposta a ataques autoritários, perde-se liberdade

A relação harmoniosa entre imprensa e poder diz mal dos dois. Não há poder isento de defeito, já por dispor dos recursos exclusivos que o sobrepõem ao restante. Para a relação harmoniosa, é necessário silêncio ou complacência da imprensa sobre as falhas do poder — seja o político, o administrativo, o econômico ou privado, e o poder armado. Um certo mal-estar entre imprensa com alguma independência e o poder faz parte da relação entre críticos e criticados, que, aliás, se alternam mutuamente nos dois papéis.

Jair Bolsonaro não aceita a relação em tais termos, embora não tenha mais do que possibilidade de poder. E indica que não os aceitará, se chegar ao poder. Suas referências à imprensa e a jornalistas subiram ao nível de agressões verbais e ameaças. Mas não é aí que está o maior perigo. É na reação intimidada da imprensa, pouco menos do que inexistente. Atitude que, na ótica de Bolsonaro e seu círculo, só pode significar o início da domesticação buscada pelo autoritarismo.

Aqui e fora, sempre que a imprensa não respondeu com altivez aos ataques autoritários, sua tibieza foi debitada na conta da liberdade. Em geral, não só a de imprensa, mas logo, também, a do teatro (presença infalível entre as primeiras vítimas) e demais artes.

Em parte, a atitude retraída da imprensa reflete o seu temor de que seja criado algo como um Conselho de Ética dos Meios de Comunicação, que os jornalistas de direita dizem ser “controle da imprensa”. O que temeram à toa em Lula e Dilma, as empresas de comunicação temem agora com motivo. No pelotão Bolsonaro, não há general, além do próprio candidato, que não faça à imprensa restrições a seu ver necessitadas de medidas enérgicas.

A aparente indiferença às agressões, porém, não muda a imagem da imprensa na cúpula bolsonária. O provável é o inverso. E o certo é que qualquer medida vinda de tal grupo, para os meios de comunicação, será muito pior do que aquele conselho inspirado nos existentes na Europa.

Folha